quarta-feira, 30 de outubro de 2019

4. Chocolate.

Da última vez falei-te dos "e se..." da minha vida. Aliás, falei-te de um deles, ainda tenho tanta coisa para te contar... Mas nem tudo tem sido mau na minha vida. 


Relativamente ao chocolate, disse-te que é um grande vício meu, e que foi ficando pior desde que vim para França... Atingindo o seu auge com a minha vinda para Paris.


 


Decidi procurar ajuda no dia em que comi 1 tablete daquelas grandes da Milka à tarde, e très pequenas de outra marca à noite. 600 gramas de chocolate no mesmo dia! Quase um quilo! De vício, descontrolado.


 


Já tinha ouvido falar na hipnose para diminuir vícios. Primeiro por uma antiga colega de trabalho que tem um mini gabinete de hipnose em casa dela, e que dava consultas nas horas vagas... Para ganhar uns extras. 


 


E depois, a pesquisar na Internet, encontrei informação sobre a auto-hipnose para perder o vício do chocolate, até cheguei a fazer um pouco através de vídeos no YouTube... Sentia que no dia seguinte ficava menos "compulsiva", então decidi procurar ajuda a sério, fui à Internet, escolhi a melhor terapeuta de hipnose que consegui encontrar no arrondissement onde trabalho.


 


E ainda bem que o fiz... Ela descobriu rapidamente o "porquê", aliás, "os porquês" de eu ter este vício...


 


Eu sabia que vinha de algo mais profundo, mas esse algo, é algo que não está. Algo a que ela chama de "vide émotionnel" (tradução : vazio emocional).


 


E é isso, esse vazio, que tento preencher com carradas de chocolate. Daí comer quando estou sozinha... Ou quando me sinto frustrada...


 


Há muitas cordas que usamos para jos mantermos à tona de água quando nos sentimos afogar... A minha corda durante muitos anos foi o chocolate... Mas já não vai ser, durante muito mais tempo. Há 2 semanas para cá que uma tablete de chocolate (preto!) me dá para 2 ou 3 dias! 


 


Pode parecer pouco para alguns, mas eu já não sabia o que era ter um dia de vida sem um pico de insulina, há muito, muito, tempo!


 


Posso ainda ter recaídas, a terapeuta avisou-me que tal pode acontecer, mas não me preocupa nada.... Sabes porquê? Consegui ver a luz ao fundo do túnel. Por isso sei que, algures, há uma saída. 

4. Chocolate.

Da última vez falei-te dos "e se..." da minha vida. Aliás, falei-te de um deles, ainda tenho tanta coisa para te contar... Mas nem tudo tem sido mau na minha vida. 


Relativamente ao chocolate, disse-te que é um grande vício meu, e que foi ficando pior desde que vim para França... Atingindo o seu auge com a minha vinda para Paris.


 


Decidi procurar ajuda no dia em que comi 1 tablete daquelas grandes da Milka à tarde, e très pequenas de outra marca à noite. 600 gramas de chocolate no mesmo dia! Quase um quilo! De vício, descontrolado.


 


Já tinha ouvido falar na hipnose para diminuir vícios. Primeiro por uma antiga colega de trabalho que tem um mini gabinete de hipnose em casa dela, e que dava consultas nas horas vagas... Para ganhar uns extras. 


 


E depois, a pesquisar na Internet, encontrei informação sobre a auto-hipnose para perder o vício do chocolate, até cheguei a fazer um pouco através de vídeos no YouTube... Sentia que no dia seguinte ficava menos "compulsiva", então decidi procurar ajuda a sério, fui à Internet, escolhi a melhor terapeuta de hipnose que consegui encontrar no arrondissement onde trabalho.


 


E ainda bem que o fiz... Ela descobriu rapidamente o "porquê", aliás, "os porquês" de eu ter este vício...


 


Eu sabia que vinha de algo mais profundo, mas esse algo, é algo que não está. Algo a que ela chama de "vide émotionnel" (tradução : vazio emocional).


 


E é isso, esse vazio, que tento preencher com carradas de chocolate. Daí comer quando estou sozinha... Ou quando me sinto frustrada...


 


Há muitas cordas que usamos para jos mantermos à tona de água quando nos sentimos afogar... A minha corda durante muitos anos foi o chocolate... Mas já não vai ser, durante muito mais tempo. Há 2 semanas para cá que uma tablete de chocolate (preto!) me dá para 2 ou 3 dias! 


 


Pode parecer pouco para alguns, mas eu já não sabia o que era ter um dia de vida sem um pico de insulina, há muito, muito, tempo!


 


Posso ainda ter recaídas, a terapeuta avisou-me que tal pode acontecer, mas não me preocupa nada.... Sabes porquê? Consegui ver a luz ao fundo do túnel. Por isso sei que, algures, há uma saída. 

terça-feira, 29 de outubro de 2019

3. Carro.

Disse que voltava aqui para te falar do meu carro.


 


Vendi o meu carro. O segundo que tive na vida. O primeiro comprei em Portugal com o meu primeiro salário, e dinheiro que tinha poupado durante 3 anos para fazer Erasmus. Intercâmbio no Reino Unido, para o qual fui seleccionada, somente duas vagas disponíveis! e do qual acabei por desistir, por pressão do meu pai, devido a dificuldades económicas... Estão a ver quando estamos entusiasmados para realizar um sonho, e os nossos pais, dos quais somos financeiramente dependentes, nos dizem a frase-mata-sonhos: "eu não tenho dinheiro para te pagar isso".


 


E vocês, ingénuos, aceitam o que os vossos pais decidiram que era o melhor para vocês... Apesar de saberem que, há bolsa, há formas de trabalhar para a universidade e ganhar uns trocos... Havia tanta forma de me ter safado, tanta solução, tinha tanta certeza de que ia correr bem, e mesmo assim ouvi o meu pai, e desisti. Lembro-me daquela quarta-feira, acordei cedo para ir falar com a professora responsável pela colocação nos Erasmus... 


 


"Professora, vim aqui para desistir da minha vaga e passá-la ao próximo na lista" (eu era a primeira a ter ficado colocada... Com a minha desistência, o terceiro colocado foi no meu lugar...)


 


"Você tem noção da oportunidade que está a deitar fora? Tem noção da quantidade de pessoas que queriam estar no seu lugar?"


 


"Tenho sim, mas por razões familiares não vou conseguir ir". 


 


Este foi um daqueles dias que mudou tudo na minha vida. O sonho de emigrar para o UK foi-se...


 


Saí daquela sala e contornei a minha escola por trás, para evitar o caminho principal e ter de me cruzar com pessoas conhecidas, em apneia fui caminhando entre os departamentos, até chegar à parte de trás da biblioteca, onde dava para ver a ria, e aquela paisagem magnífica que me acompanhou em muitas tardes de estudo... Era mesmo muito cedo, estava um bocado de nevoeiro. E a apneia foi-se. Comecei a chorar. Chorei tanto. Chorei (quase) tudo. Naquele dia senti que um caminho, de entre tantos outros caminhos que podia ter escolhido, tinha desaparecido para todo o sempre.


 


Chorei:


Por não ter nascido com mais posses monetárias,


Por não ter tido coragem de dizer foda-se ao meu pai,


Por ter tido medo de falhar e ouvir um "eu bem te avisei que o dinheiro não ia chegar".


 


Tive medo, muito medo... E com medo de desiludir os meus pais, desiludi-me a mim própria. E desisti...


 


Hoje não sei como teria sido a minha vida se tivesse ido para o Reino Unido e não para França? É engraçado... E ao mesmo tempo não tem piada nenhuma! Como um só segundo de indecisão, pode mudar tudo. O plano era: erasmus e depois procurar trabalho por lá. 


 


Entretanto, com o curso acabado, comprei o meu primeiro carro, com o qual não tinha sonhado, com o dinheiro de outro sonho... porque o trabalho que tinha na altura era relativamente longe de onde morava... Depois com as poupanças que voltei a fazer nesse trabalho, emigrei. Para França. O Reino Unido tinha um sabor tão agridoce que nem voltei a considerar essa hipótese. O primeiro carro lá ficou, com os meus pais, e irmão, são eles que o usam, já não me pertence... Mas quando vou a Portugal e vejo a puta daquele carro, não consigo deixar de pensar "e se tivesse ido?" 


 


Traz-me recordações pesadas. 


 


Chegada a França, numa terrinha com mais vacas do que habitantes, tive que voltar a comprar outro carro após um ano. Um carrinho pequenino, que ficou comigo por 3 anos. Chorei muito naquele carro, mas também ri muito. E as quantidades industriais de chocolate que comi lá dentro... Um carro tem sempre tantas histórias para contar não tem? Até o raio da matrícula tinha as minhas iniciais! 


 


Vendi-o no dia 2 de Setembro deste ano. Foi muito mal negociado e perdi quase tudo que paguei por ele... Só em TGV para o ir vender, foi quase tudo que me pagaram... Carros nunca são um investimento, mas isso eu já sabia. Contudo, fiquei mais leve. Não há gasolina para meter, não há inspecção para fazer, não há mais seguro para pagar. Aqui em Paris, quando quiser partir, é só pegar na troxas que tenho, meter tudo num saco (ou dois!) e bazar. Já não há mais nada para vender.


 


Sobre o carro#1: consegui perdoar o meu pai. E, 7 anos depois, a mim também... Mas só porque aprendi a aceitar que estou onde tenho que estar. É preciso deixar de pensar em quem podia ter sido, e concentrar-me na pessoa que sou e quero ser. 


 


Em termos materiais, não há mais nada que me prenda.


 


Ouve o que te digo, uma pessoa só se arrepende do que não faz... E isto que acabei de te contar é, provavelmente, o meu maior "e se..."


 


Mas a lista de arrependimentos a expurgar ainda é longa. Espero que estejas com paciência para ouvir. Obrigada por estares aí. 


 


 

3. Carro.

Disse que voltava aqui para te falar do meu carro.


 


Vendi o meu carro. O segundo que tive na vida. O primeiro comprei em Portugal com o meu primeiro salário, e dinheiro que tinha poupado durante 3 anos para fazer Erasmus. Intercâmbio no Reino Unido, para o qual fui seleccionada, somente duas vagas disponíveis! e do qual acabei por desistir, por pressão do meu pai, devido a dificuldades económicas... Estão a ver quando estamos entusiasmados para realizar um sonho, e os nossos pais, dos quais somos financeiramente dependentes, nos dizem a frase-mata-sonhos: "eu não tenho dinheiro para te pagar isso".


 


E vocês, ingénuos, aceitam o que os vossos pais decidiram que era o melhor para vocês... Apesar de saberem que, há bolsa, há formas de trabalhar para a universidade e ganhar uns trocos... Havia tanta forma de me ter safado, tanta solução, tinha tanta certeza de que ia correr bem, e mesmo assim ouvi o meu pai, e desisti. Lembro-me daquela quarta-feira, acordei cedo para ir falar com a professora responsável pela colocação nos Erasmus... 


 


"Professora, vim aqui para desistir da minha vaga e passá-la ao próximo na lista" (eu era a primeira a ter ficado colocada... Com a minha desistência, o terceiro colocado foi no meu lugar...)


 


"Você tem noção da oportunidade que está a deitar fora? Tem noção da quantidade de pessoas que queriam estar no seu lugar?"


 


"Tenho sim, mas por razões familiares não vou conseguir ir". 


 


Este foi um daqueles dias que mudou tudo na minha vida. O sonho de emigrar para o UK foi-se...


 


Saí daquela sala e contornei a minha escola por trás, para evitar o caminho principal e ter de me cruzar com pessoas conhecidas, em apneia fui caminhando entre os departamentos, até chegar à parte de trás da biblioteca, onde dava para ver a ria, e aquela paisagem magnífica que me acompanhou em muitas tardes de estudo... Era mesmo muito cedo, estava um bocado de nevoeiro. E a apneia foi-se. Comecei a chorar. Chorei tanto. Chorei (quase) tudo. Naquele dia senti que um caminho, de entre tantos outros caminhos que podia ter escolhido, tinha desaparecido para todo o sempre.


 


Chorei:


Por não ter nascido com mais posses monetárias,


Por não ter tido coragem de dizer foda-se ao meu pai,


Por ter tido medo de falhar e ouvir um "eu bem te avisei que o dinheiro não ia chegar".


 


Tive medo, muito medo... E com medo de desiludir os meus pais, desiludi-me a mim própria. E desisti...


 


Hoje não sei como teria sido a minha vida se tivesse ido para o Reino Unido e não para França? É engraçado... E ao mesmo tempo não tem piada nenhuma! Como um só segundo de indecisão, pode mudar tudo. O plano era: erasmus e depois procurar trabalho por lá. 


 


Entretanto, com o curso acabado, comprei o meu primeiro carro, com o qual não tinha sonhado, com o dinheiro de outro sonho... porque o trabalho que tinha na altura era relativamente longe de onde morava... Depois com as poupanças que voltei a fazer nesse trabalho, emigrei. Para França. O Reino Unido tinha um sabor tão agridoce que nem voltei a considerar essa hipótese. O primeiro carro lá ficou, com os meus pais, e irmão, são eles que o usam, já não me pertence... Mas quando vou a Portugal e vejo a puta daquele carro, não consigo deixar de pensar "e se tivesse ido?" 


 


Traz-me recordações pesadas. 


 


Chegada a França, numa terrinha com mais vacas do que habitantes, tive que voltar a comprar outro carro após um ano. Um carrinho pequenino, que ficou comigo por 3 anos. Chorei muito naquele carro, mas também ri muito. E as quantidades industriais de chocolate que comi lá dentro... Um carro tem sempre tantas histórias para contar não tem? Até o raio da matrícula tinha as minhas iniciais! 


 


Vendi-o no dia 2 de Setembro deste ano. Foi muito mal negociado e perdi quase tudo que paguei por ele... Só em TGV para o ir vender, foi quase tudo que me pagaram... Carros nunca são um investimento, mas isso eu já sabia. Contudo, fiquei mais leve. Não há gasolina para meter, não há inspecção para fazer, não há mais seguro para pagar. Aqui em Paris, quando quiser partir, é só pegar na troxas que tenho, meter tudo num saco (ou dois!) e bazar. Já não há mais nada para vender.


 


Sobre o carro#1: consegui perdoar o meu pai. E, 7 anos depois, a mim também... Mas só porque aprendi a aceitar que estou onde tenho que estar. É preciso deixar de pensar em quem podia ter sido, e concentrar-me na pessoa que sou e quero ser. 


 


Em termos materiais, não há mais nada que me prenda.


 


Ouve o que te digo, uma pessoa só se arrepende do que não faz... E isto que acabei de te contar é, provavelmente, o meu maior "e se..."


 


Mas a lista de arrependimentos a expurgar ainda é longa. Espero que estejas com paciência para ouvir. Obrigada por estares aí. 


 


 

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

2. Estúdio.

No estúdio onde moro tenho exactamente 7 móveis (dos quais constam 2 cadeiras de plástico do IKEA), 4 prateleiras num dos muros, que estão cheias de livros, um lavatório com um armário encastrado em baixo, que decidi não considerar como móvel por fazer parte do muro, onde cabem os meus produtos todos de beleza e higiene pessoal. Num dos cantos, uma cabine de duche AKA poliban.


 


Dentro da parte inclinada, está o que parece uma mini despensa separada com portas de correr, mas onde nem consigo entrar de pé... Nesse espaço tenho três caixas de arrumação de plástico, daquelas para os brinquedos das crianças, onde cabe, literalmente, a minha roupa toda. E mais 3 mini prateleiras no muro interio, onde consegui colocar algumas toalhas, as minhas meias e restante roupa interior, em caixinhas. Tenho outra caixa com produtos de limpeza que trouxe da casa antiga... Demasiados para aqui. Neste sítio a limpeza faz-se em 15 minutos. Sim, já contei. 


 


Tenho um mini-espaço para cozinhar, com um mini lava-louça, daqueles que fica cheio com um prato e um copo. Ao lado, duas placas para cozinhar. Por acaso aquilo aquece rápido e até vou conseguindo cozinhar qualquer coisa de jeito ali. É o que me safa. Mas isso começou há cerca de duas semanas, os primeiros 4 meses aqui, alimentava-me de pratos preparados, e encomendava muito em aplicações. Mas isso não é vida... Começou a custar-me ver tanto dinheirinho a voar assim... Já não bastava o outro que gasto com o chocolate. 


 


Num cantinho do chão, vou metendo os legumes que compro e que não cabem no frigorífico, que como podes imaginar, é daqueles tipo frigorífico de hotel, com 1 mini congelador em que a porta nem fecha bem e acaba por ficar geio de gelo em 2 tempos, depois já não cabe lá mais nada, e tenho que descongelar. Um ciclo sem fim... Uma vez por mês lá estou eu, de rabo para o ar, a secar a água que caiu para o chão durante o descongelamento. Esse frigorífico tem, mais duas prateleiras de fresco, uma gaveta em baixo, supostamente para legumes, mas onde só cabem 2 courgettes e 3 tomates de cada vez, e na porta, uma prateleira para ovos, mais precisamente, seis. 


 


O estúdio tem uma porta, e única, a da entrada. E de saída. Uma janela estilo Velux na parte inclinada do tecto, daquelas com vista para os telhados de Paris, que fica mesmo por cima do sofá-cama, oferecendo-me, em dias de chuva, o melhor ASMR para dormir que podia ter pedido.


 


A outra janela, proporciona-me uma vista para o "local" do lixo do prédio e é onde consigo avistar, ao longe, a torre de Montparnasse, com a sua luzinha azul sempre no pisca-pisca.


 


Estou aqui deitada no sofá-cama a escrever-te isto. E à espera que os dois aquecimentos eléctricos minúsculos aqueçam a divisão. Sim, moro numa única divisão. Agora, a minha vida toda cabe em 12m2. E ainda falta destralhar muita coisa. Quem diria. 


 


A casa de banho? Essa fica no corredor. Num cubículo minúsculo, onde só vou para fazer xixi e cocó. Que partilho com mais 4 estúdios como o meu. Creio que os outros sejam estudantes, porque nunca estão cá ao fim de semana. Aliás, nunca estão cá, ponto. Tenho o sexto andar, e meio!, só para mim. Nunca pensei viver num meio andar... 50% de um andar, no topo de um prédio, em Paris... Well, podia ser pior. Ao menos tem elevador. 


 


Já te disse que vendi o meu carro? A minha caixinha de fósforos que tanto me levou para sítios? Vou só ali dormir um bocadinho, amanhã já te conto mais sobre isto. 


 

2. Estúdio.

No estúdio onde moro tenho exactamente 7 móveis (dos quais constam 2 cadeiras de plástico do IKEA), 4 prateleiras num dos muros, que estão cheias de livros, um lavatório com um armário encastrado em baixo, que decidi não considerar como móvel por fazer parte do muro, onde cabem os meus produtos todos de beleza e higiene pessoal. Num dos cantos, uma cabine de duche AKA poliban.


 


Dentro da parte inclinada, está o que parece uma mini despensa separada com portas de correr, mas onde nem consigo entrar de pé... Nesse espaço tenho três caixas de arrumação de plástico, daquelas para os brinquedos das crianças, onde cabe, literalmente, a minha roupa toda. E mais 3 mini prateleiras no muro interio, onde consegui colocar algumas toalhas, as minhas meias e restante roupa interior, em caixinhas. Tenho outra caixa com produtos de limpeza que trouxe da casa antiga... Demasiados para aqui. Neste sítio a limpeza faz-se em 15 minutos. Sim, já contei. 


 


Tenho um mini-espaço para cozinhar, com um mini lava-louça, daqueles que fica cheio com um prato e um copo. Ao lado, duas placas para cozinhar. Por acaso aquilo aquece rápido e até vou conseguindo cozinhar qualquer coisa de jeito ali. É o que me safa. Mas isso começou há cerca de duas semanas, os primeiros 4 meses aqui, alimentava-me de pratos preparados, e encomendava muito em aplicações. Mas isso não é vida... Começou a custar-me ver tanto dinheirinho a voar assim... Já não bastava o outro que gasto com o chocolate. 


 


Num cantinho do chão, vou metendo os legumes que compro e que não cabem no frigorífico, que como podes imaginar, é daqueles tipo frigorífico de hotel, com 1 mini congelador em que a porta nem fecha bem e acaba por ficar geio de gelo em 2 tempos, depois já não cabe lá mais nada, e tenho que descongelar. Um ciclo sem fim... Uma vez por mês lá estou eu, de rabo para o ar, a secar a água que caiu para o chão durante o descongelamento. Esse frigorífico tem, mais duas prateleiras de fresco, uma gaveta em baixo, supostamente para legumes, mas onde só cabem 2 courgettes e 3 tomates de cada vez, e na porta, uma prateleira para ovos, mais precisamente, seis. 


 


O estúdio tem uma porta, e única, a da entrada. E de saída. Uma janela estilo Velux na parte inclinada do tecto, daquelas com vista para os telhados de Paris, que fica mesmo por cima do sofá-cama, oferecendo-me, em dias de chuva, o melhor ASMR para dormir que podia ter pedido.


 


A outra janela, proporciona-me uma vista para o "local" do lixo do prédio e é onde consigo avistar, ao longe, a torre de Montparnasse, com a sua luzinha azul sempre no pisca-pisca.


 


Estou aqui deitada no sofá-cama a escrever-te isto. E à espera que os dois aquecimentos eléctricos minúsculos aqueçam a divisão. Sim, moro numa única divisão. Agora, a minha vida toda cabe em 12m2. E ainda falta destralhar muita coisa. Quem diria. 


 


A casa de banho? Essa fica no corredor. Num cubículo minúsculo, onde só vou para fazer xixi e cocó. Que partilho com mais 4 estúdios como o meu. Creio que os outros sejam estudantes, porque nunca estão cá ao fim de semana. Aliás, nunca estão cá, ponto. Tenho o sexto andar, e meio!, só para mim. Nunca pensei viver num meio andar... 50% de um andar, no topo de um prédio, em Paris... Well, podia ser pior. Ao menos tem elevador. 


 


Já te disse que vendi o meu carro? A minha caixinha de fósforos que tanto me levou para sítios? Vou só ali dormir um bocadinho, amanhã já te conto mais sobre isto. 


 

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

1. Ecdise.

Pensavam que se viam livres de mim. Ainda não foi desta. 


Estou quase a completar 5 meses em Paris. Resumindo: morava no campo, numa região de França onde há provavelmente mais vacas do que habitantes, a 5 minutos do trabalho, normalmente às 18h da tarde estava em casa. Era uma vida solitária.


Passar 1h nas redes sociais, postar no blog, pegar no carro e ir ao supermercado comprar uma tablete de chocolate durante a última meia hora antes do fecho. Comer a tablete no carro. Reflectir bastante sobre a vida. Estar sozinha, fazer o jantar, dormir. Pouco. 


4 anos se passaram. A equipa mudou 3 vezes. O chefe despediu-se. Eu despedi-me. Peguei em tudo que tinha e uma metade vendi, uma parte do resto deitei fora, e o que sobrou veio comigo.


Uma amiga ajudou-me a trazer tudo numa carrinha que aluguei num supermercado. 10m2 de tralha, caixotes dispostos no chão da carrinha, para depois caber tudo num 12m2. No sexto andar. 


Passei de um quarto andar para um sexto andar. A isto se chama subir na vida. 


Mas às vezes para se conseguir subir, é preciso perder muito peso morto. 


Trabalho geralmente das 8h30 às 19h. Às vezes mais, outras vezes menos. Depende dos dias, e das vontades dos pacientes. 


Tenho 20 minutos de trajecto de metro para ir para o trabalho. Às vezes há greve e vou a pé. 45 minutos. Para Paris, podia ser pior. Quando saio do trabalho, compro a minha tablete de chocolate, e como enquanto vou para o metro. São 5 minutos a pé. Quando chego lá, normalmente deito o papel que embrulhava a tablete fora. Costuma ser roxo, às vezes vermelho, e outras vezes de marca branca, dependendo do humor. 


Gasto cerca de 80€ por mês em chocolate. Às vezes mais, outras vezes menos. 


 


Estou a viver num bairro lindo. Costumo ir ler para ao pé do Sacré Cœur. Ou pelo menos gostava de ter mais tempo para o fazer. 


 


Tenho tido imensas ideias de formações... E a minha cabeça já fervilha com muitas ideias de projetos futuros... 


 


Por falar em futuro, quando cheguei aqui, meti na cabeça que ia arranjar um namorado até ao final do ano... Dormi com uns quantos homens nos primeiros 3 meses aqui. Alguns comprometidos. Apercebi-me que estar com alguém não é sinónimo de felicidade ou fidelidade, o mínimo dos mínimos. 


 


É desisti da ideia de arranjar alguém. Ou de foder com um qualquer. Não sei que se passa porque sinto que não quero nada, e ao mesmo tempo quero tudo. Mas quero que valha a pena, entendes? 


Estamos quase, quase, a entrar numa outra década. E vou festejar esta passagem de ano em Paris. Provavelmente sozinha, por opção. 


 


Porque tenho tido imensa vontade de estar sozinha. Já não me sinto deprimida como senti com a mudança de tempo... Perder o sol deitou-me abaixo. Céus cinzentos não são a minha cena... De todo. 


Sinto mais como se... Estivesse a trocar de pele sabes? Como se precisasse de ficar no meu cantinho até a pele velha cair toda. Como se deixar para trás aquele exoesqueleto velho de quem outrora fui, fosse a etapa lógica e imprescindível. Para poder crescer e ocupar o espaço da pessoa que verdadeiramente sou. 


 


Ecdise: é o processo de mudança de pele, de exoesqueleto, de pêlo de alguns animais, de forma a poderem crescer e tornar-se mais fortes. 


 


 


 


 


 

Hoje estou positiva

Hoje é um dia bom, só queria deixar isto aqui para me lembrar de que há momentos sem ansiedade, é aproveitar enquanto duram e lembrar-me que...