... os meus pais estão bem. As comunicações foram cortadas em todo o concelho e nos concelhos vizinhos. De vez em quando não havia luz, o fumo entra quando se abre a janela, há pessoas a usar máscara e crianças a desenvolver problemas respiratórios. O cenário é negro, há cinzas por todo o lado, os telhados estão pretos e os muros estão cheios de fuligem. Foi assim que a minha mãe me descreveu o que estão a viver.
Algumas casas do concelho arderam, uns quantos negócios nos concelhos vizinhos foram ao ar. E assim se perde tudo pelo qual se lutou uma vida, pessoas resilientes que apostaram no interior do país encontram-se hoje sem nada. O meu pai não teve um único cliente ontem no negócio dele, e hoje ia pelo mesmo caminho. O meu avô materno perdeu um pinhal inteiro e o meu avô paterno perdeu a vinha. E assim se perdem negócios e sonhos. Os incêndios matam, os incêndios levam com eles a esperança em dias melhores, os incêndios estão a dar cabo das pequenas vilas e aldeias do país. Fala-se em desertificação, numa Serra da Estrela cada vez mais vazia, mas ninguém ajuda quem lá fica. Depois as pessoas vão embora para as cidades ou estrangeiro. Já ninguém consegue ficar na aldeia que os viu crescer. Por outro lado, os da cidade gritam aos sete ventos que a "sua" cidade não dá para todos, e têm razão, não vamos conseguir caber todos nas cidades, um dia a bolha rebenta. O meu pai tem quase 50 anos e já fala em voltar a sair do país ou mudar-se para uma cidade. Ninguém aguenta viver no campo com condições assim. Há zonas do país abandonadas, sem escolas com a centralização em cidades, sem hospitais com a centralização em cidades, com postos de bombeiros desprovidos de meios, obrigados a esperar que os "maiores" da cidade cheguem.
Meus caros, o que vou dizer é muito triste, eu não sei onde quero morar no futuro, se em Portugal ou no estrangeiro, visto que mudo de ideias como quem muda de cuecas, mas sei muito bem onde não quero voltar a morar nunca, numa aldeia qualquer perdida no meio de Portugal. Com muita pena minha, se algum dia tiver filhos, eles nunca vão respirar um ar tão puro como o que eu respirei durante a minha infância na Serra.
Fico feliz por saber que a tua família está bem. Imagino a aflição sem notícias...
ResponderEliminarQuanto ao interior do país, creio que um dia haverá alguém que entenda que um país não vive só de litoral. Espero que esse dia não esteja tão longe assim...
Horrível...
ResponderEliminarFico feliz por saber que estão bem.
ResponderEliminarE lamento imenso este abandono do interior, este abandono das pessoas...
Oh dESarrumada, imagino tu tão longe da tua família, e o desespero desta.. Muita força, ainda bem que está tudo bem, e agora é lutar por dias melhores... Realmente não há nada como viver na cidade, ao menos a poluição é constante e sabemos - mais ou menos - com o que contar. É muito triste esta situação do país! :(
ResponderEliminarAinda hoje falava disso. Tinha o sonho de viver no campo mas acho que este fim de semana perdi toda a vontade . Triste, muito triste.
ResponderEliminarHa ja algum tempo que nao vinha ler o blog por falta de tempo e agora percebi, que é daqui da minha zona.
ResponderEliminarEfetivamente a nossa zona foi varrida. Mas vamos recuperar e voltar a ter o nosso verdinho.
beijinhos