Estou com vontade de divagar sobre algo que ainda não tinha falado neste blog (falei no meu antigo, mas quando passei para este blog não trouxe os posts comigo)...
Este post é programado, por isso quando ele sair espero estar a curtir milhões as belas vistas do arquipélago de Estocolmo e a beber um cafezão daqueles num momento bem hygge.
O porquê de estar a morar numa cidade em França que me agrada mais ou menos, mas com um trabalho que já não consigo suportar. Porquê? Pergunto eu todas as manhãs.
Na vida podemos escolher tudo, e quando digo tudo, parto do pressuposto que com a escolha da forma como me quero sentir também posso, de alguma maneira, modificar a minha realidade.
Sobre mim, vim para aqui através de uma proposta que vi na Internet... na altura pareceu-me bem começar por uma vila pequena, não sabia muito da língua, e estando o meu local de trabalho muito necessitado de profissionais com a minha formação, a forma para obter a autorização de trabalho seria facilitada. E foi o que aconteceu, foi muito fácil, num mês estava a decidir sair de Portugal e no outro mês já cá estava. Limpinho, limpinho.
Até aí tudo bem, já havia portugueses cá, vim com outra colega portuguesa, por isso, no primeiro ano em França digamos que não senti muito os efeitos de estar longe, era tudo novo, havia tanto para aprender, tinha muitas saudades, mas quando ia a Portugal sentia que estava tudo na mesma, os amigos estavam iguais, a família estava igual, nada tinha mudado.
Ao fim de um ano fiquei a morar sozinha. Fiz várias amigas francesas do trabalho e 2 delas aproximaram-se mais, dou graças a Deus elas serem as melhores pessoas que o destino podia ter metido no meu caminho nesta fase da minha vida. Elas são espectaculares e são de uma paciência infinita, é engraçado como temos as 3 os mesmos problemas, e frequentemente damos por nós a desabafar sobre coisas que todas sentimos. Muita empatia, gosto mesmo delas. Foi com elas que vim viajar by the way...
Entretanto neste trabalho, descontente com algum abuso de poder que o meu chefe exercia sobre nós na altura, início de 2016, e, claramente, com a sua falta de competência, comecei a dar sinais de me querer ir embora. Foi então que o chefe de serviço, sabendo que eu gosto muito de uma determinada área na minha profissão, veio fazer-me a proposta de fazer uma formação de um ano paga por eles, com a possibilidade (na altura era certeza) de poder desenvolver essa área aqui. A contrapartida era que tinha que assinar um contrato de 2 anos com eles, em que nesses 2 anos não podia despedir-me, ou então tinha que pagar o valor integral da formação.
Até aqui tudo bem, pareceu-me uma boa ideia, fazer uma formação à pala e ainda por cima poder aplicá-la de seguida, escolhi ficar, escolhi assinar. No entanto, quando chegaram com o contrato para eu assinar, o valor que estava lá era de quase o triplo do verdadeiro valor da formação. Fiquei muito chateada com eles, basicamente senti que me estavam a obrigar à força a ficar aqui os 2 anos, sem hipótese de sair, porque fazê-lo faz-me perder mais dinheiro do que aquele que teria gasto se tivesse pago a formação do meu bolso. A única "forma de escapar" que ainda vejo nisto é o valor ser regressivo, ou seja, se ficar aqui um ano pago 50% do tal valor, se ficar 1 ano e meio só pago 75% do valor.
Entretanto a situação no trabalho mudou, o meu chefe directo, tem exercido ainda mais abuso de poder sobre mim, sabendo que estou "obrigada" a ficar aqui 2 anos, tem falado comigo de forma super agressiva, exigente e desrespeitosa. Quando uma pessoa reclama ainda leva com bocas do género "fecha a boca" e acusações constantes sobre o tipo de trabalho que eu e os meus colegas efectuamos, nunca nada está suficientement bem feito. Já não o aguento, estes últimos 4 meses de trabalho têm sido um inferno, chego a casa e só quero chorar... Estou desiludida com isto tudo, é que para além de me terem enganado no valor a pagar se quiser sair, já fiz a formação em Junho e para já ainda nada de novidades sobre desenvolver um projecto na área.
Pois bem, decidi que hei-de sair daqui um dia, não aguento trabalhar com esta pessoa... já para não falar que quando se fazem promessas, e estas não são cumpridas, o trabalhador acaba por perder a motivação e a lealdade que o ligavam a determinada empresa. Admito, não me sinto de todo motivada para começar um projecto aqui, não me imagino a viver nesta cidade mais 1 ano e 8 meses... e essa situação tem andando a deixar-me triste. Mesmo muito. É uma fase da minha vida pela qual nunca imaginei passar, ainda por cima sabendo que é relativamente fácil arranjar trabalho em França na minha área...
Gostava de ser daquelas pessoas que assumem as suas decisões até ao fim, que seja para o que "der e vier", mas sinto-me enganada, e quando me sinto enganada perco-me. Deixo de querer o que antes pensava ser algo de bom. Resumindo, esta é a minha situação actual em França. Apesar de gostar do trabalho que efectuo por si só, detesto as pessoas com quem trabalho. Vão haver mentirosos em todo o lado, eu sei, mas com estes não me vejo a trabalhar mais.
Juntando a isto há o facto de ter um um namorado em Portugal, de a cada vez que vou lá sentir que estou a ficar "esquecida" pelos meus conhecidos, que já não me reconheço no "meu" país, que já perdi 70% dos "amigos" que tinha quando me vim embora por afastamento progressivo e falta de pontos em comum... por todas estas razões a ideia de voltar para Portugal não me sai da cabeça nos últimos meses... está quase a tornar-se obsessivo, todas as noites vejo as ofertas de trabalho. Mas... há sempre um mas... também sei que antes de sair daqui, tenho que tentar noutro sítio, só para "ter a certeza" e diferenciar se é a França que não me corresponde ou se foi este "azar" no trabalho que, de alguma forma, estragou a minha experiência laboral no estrangeiro. Não sou de "desistir" facilmente... meti desistir entre aspas porque no fundo não considero que voltar para o seu país seja desistir, tudo na vida são experiências, aprendizagens, temos é que reconhecer quando não vale a pena insistir mais numa determinada aprendizagem... e com certeza estes 3 anos aqui já me ensinaram muito, sobre mim e sobre os outros.
A verdade é que a emigração trouxe-me muito a nível pessoal, já vivi experiências que não trocava por nada... e a nível de perspectivas de carreira e aprendizagem trouxe-me muito nos primeiros 2 anos, mas de há um ano para cá sinto que ando a "fazer tempo" para outra coisa... e não gosto desta sensação de estar a perder tempo... tenho pressa, quero tudo e já... o problema é que não sei bem o quê...
Desculpem lá o testamento, mas isto tinha de sair cá para fora. Estou mais leve depois de ter escrito sobre isto... agora vamos lá ver se decido alguma coisa ou se a minha vida "desbloqueia" de alguma forma milagrosa...
como eu te compreendo :)
ResponderEliminarestive fora 5 anos. voltei a Portugal há pouco mais de um mês. e voltei porque cada escolha profissional que fiz tive problemas com chefia. cada tiro cada melro. a minha saúde mental deteriorou-se e não tinha apoio emocional. sofri imenso e sempre adiei a minha vinda pela mesma razão que tu: deixa-me tentar mais uma vez a ver se isto melhora. ao contrário de ti, não tinha namorado e restavam poucos amigos tb pela minha condição mental.
tem sido um choque enorme e ainda me estou a habituar e nem quero falar de trabalho! A minha é uma área fácil e encontrar emprego em portugal agora seria regredir na minha carreira e no meu progresso. para não mencionar salário.
desejo-te o melhor neste momento. não são decisões fáceis.
e boa viagem
Apesar desta parte final estar a ser negativa, também acho que não deves desistir tão cedo... Até porque sabes pelas notícias que na tua área as coisas por cá continuam a não estarem fáceis...
ResponderEliminarDeixo-te só um abraço virtual (lamentando não tenho nada de iluminado para te dizer...)
ResponderEliminarComo sei bem o que sentes, principalmente o perder tempo, o medo de estar estagnada e saber que não está a resultar. Não penso que seja desistir voltar para o país, pelo contrário, acredito que continuarmos no mesmo ponto sabendo que não é bom e nem traz equilíbrio, apenas porque é mais fácil do que enfrentar decisões duras e mudanças trabalhosas então é desistir de nós. Vivemos na redoma que nos apanhou, dizemos que está tudo bem e dia a dia esquecemos o que nos faz mover. Por isso acho que deves pensar o que é que te traz felicidade, o que te desafia agora, porque dinheiro é só papel e não compra noites bem dormidas.
ResponderEliminarContinua a escrever e que se faça luz na tua vida, de forma a que te sintas melhor! São estes os meus votos!
ResponderEliminarCompreendo bem essa situação. Passei por um periodo também complicado quando estava grávida dos gémeos (não é que antes de estar grávida aquilo fosse um paraíso, mas piorou muito). Não só me obrigavam a fazer esforços (carregar pesos com mais de 7kg) como havia toda essa pressão que referes.
ResponderEliminarE quando pedi para prolongar a dispensa de amamentação mais uns meses (porque eles nasceram prematuros e precisavam mesmo daquelas defesas extra 'convidaram-me' a sair para ter uma 'oportunidade única' e ir tomar conta dos miúdos. Confesso que na altura só me apeteceu ir-lhes ao focinho, mas ponderei muito e optei mesmo por sair. Não foi fácil arranjar trabalho depois, mas hoje em dia estou muito melhor. Ir trabalhar de sorriso no rosto não há valor que o pague.
Tu assinaste algo é dizes que não cumprem a parte deles, não será uma forma de conseguires sair?
ResponderEliminarEstou tal e qual neste momento.
ResponderEliminarQuanto ao local de trabalho e motivação.
E quanto aos regressos "A Casa" - isto dentro do mesmo país e tudo...
Força!
Beijinho,
Devia consultar aí um advogado/a e expor-lhe a situação, a ver se pode rescindir esse contrato por justa causa. Ou então entrar em "baixa médica" se for possível, para passar parte do tempo a que está vinculada nesse contrato. Isso é muito triste que aconteça. Beijinho e muita força (mande-os àquela parte mas baixinho).
ResponderEliminarInspira, respira e não pira.
ResponderEliminarA vida faz-se vivendo, com as suas coisas boas e menos simpáticas. Mas acho que é ela que faz o nosso caminho, nos leva para certos trilhos, picadas que são só uma forma de nós nos melhorarmos, evoluirmos e nos levam a conhecer-nos melhor. Ela resolve os nosso dilemas com pequenos sinais, acontecimentos, desafios.Tudo passa até o caos.
Foste e és todos os dias uma mulher de coragem e admiro te muito por isso, eu por exemplo não me vejo a emigrar sozinho a ficar sozinho num país novo, a adaptação para mim seria sempre difícil porque adoro Portugal sou daqueles cuja a ideia de emigrar é sair deste cantinho assusta muito, pelos vistos tu conseguiste readaptarte e isso é óptimo
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