terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A saúde e os números.

Hoje foi um dia de merda no trabalho. Daqueles dias em que nada faz sentido e que uma pessoa chega ao final do dia a sentir que é só mais um número, que afinal está aqui só para contribuir a preencher uma lista qualquer de "doentes vistos" por mês. E sabe-se que aqui (França) os apoios da Segurança Social dependem cada vez mais da actividade que registamos e isso mete-nos uma pressão enorme em cima. Porque se não atingirmos os números a torneira é fechada e os estabelecimentos têm que fechar. Quando a saúde passa a ser só sobre números, e menos sobre pessoas, a coisa começa a descambar.


 


A maior parte dos profissionais de saúde não entrou nas respectivas formações para preencher estatísticas e passar o dia todo a correr a apagar fogos. Quando comecei nunca pensei que iria chegar ao final do meu dia de trabalho e achar que não fiz nada de verdadeiramente significativo pelo outro. Fala-se muito do burn-out nas profissões de saúde, cada vez mais compreendo as pessoas que estão de baixa, quando dizem que chegam a um ponto em que já não ouvem o doente e que só lhes apetece ou desligar e não dizer nada ou começar a gritar com toda a gente.


 


Não fosse isto um blog anónimo e nunca diria isto, mas sim, confesso que às vezes não estou a ouvir o doente. Às vezes já estou a pensar no próximo doente, ou ainda estou a matutar em coisas que o anterior me contou. Às vezes estou a pensar nas transmissões que tenho que escrever, ou na chamada que tenho que fazer, ou na agenda que tenho que organizar. E às vezes saio do trabalho muito mais tarde do que devia porque tenho esta parte administrativa para fazer. Durante o dia não há tempo para parar, pensar e reflectir se o que estou a fazer é o mais correcto, e isto semanas e semanas seguidas. Às vezes perco o fio condutor da minha intervenção, às vezes sinto que não dou o meu melhor. Às vezes vou de férias e penso em certos doentes o tempo todo, às vezes estou em casa na cama e lembro-me que me esqueci de fazer determinada coisa que tinha dito que ia fazer, e que o doente vai pensar que me esqueci dele. E esqueci mesmo.


 


E tenho insónias. E de manhã estou cansada. E depois tiro férias, tento relaxar, mas no último dia de férias já estou a pensar em tudo o que me espera no trabalho e lá se vai o estado zen. E o stress de domingo à noite mais a ansiedade de ter que voltar para um trabalho onde estou constantemente a apagar fogos, desses nem vou falar... às vezes gostava que estas coisas que me acontecem só às vezes, não me acontecessem tão frequentemente. Gostava de ter tempo para exercer a minha profissão. Será pedir muito?


 

12 comentários:

  1. Portanto, jeitosa, és uma profissional competente e preocupada com o seu trabalho, só que no sítio errado. Há que ver o lado positivo da coisa. Se ainda não correram contigo não estás a fazer um mau trabalho. E quando chegares ao próximo emprego (não te vejo a ficar aí a vida toda...) vais ser claramente a melhor desde que entres por causa da bagagem que já levas.

    Ou isso ou estás a ser muito romântica e é igual/parecido em todo o lado...

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    1. Gostava que me acontecesse o que referes no início do post, mas se calhar vai ser mais o fim do post... lool

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  2. Por acaso já falei disso no meu blog, nas empresas não somos humanos, somos números

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  3. Não, não é pedir muito! Mas infelizmente, por aí, como por cá, há pouco respeito pelo tempo que é necessário para desenvolver adequadamente os trabalhos.

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  4. Bom texto! É algo a pensar, sim senhora! O problema que falas já se alastrou por vários outros ramos profissionais e na sociedade em geral. Leva-nos a pensar: para onde caminharemos assim?

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    1. Não sei para onde vamos, só sei que temos cada vez mais os meios necessários (avanço das técnicas médicas e tecnologia) mas cada vez menos tempo para o lado humano...

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    2. Sabes, há algum tempo vi uma reportagem na televisão e concluiu-se num estudo que temos bons médicos a nível de tratamento etc, mas a sua parte humana em relação aos doentes deixa muito a desejar. Mas felizmente não são todos assim, há uns mais humanos que outros. Penso que no serviço público de saúde é pior.

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  5. É, creio que há gente a mais no mundo!

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  6. Isto "...às vezes sinto que não dou o meu melhor. Às vezes vou de férias e penso em certos doentes o tempo todo, às vezes estou em casa na cama e lembro-me que me esqueci de fazer determinada coisa que tinha dito que ia fazer, e que o doente vai pensar que me esqueci dele. E esqueci mesmo." faz tanto sentido para mim.
    Não há profissões perfeitas nem dias perfeitos.
    Força ai

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