quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Diário de bordo 20.01.2023

Desarrumados, no dia 30 de Janeiro o blog faz 8 anos. E eu só falei dele aqui 2 vezes.


D U A S miseráveis vezes, que eu falei neste blog, de uma das pessoas mais importantes da minha vida. Ele que moldou a minha forma de ser sem se aperceber, e nem eu me apercebi. Percebi aos 31 anos, depois de meses em terapia, que ele tem uma importância fulcral no meu desenvolvimento enquanto pessoa, e enquanto mulher, e que, provavelmente influenciou as minhas experiências com homens, no campo amoroso...


Uma parte de mim quer a aprovação dele. Uma parte de mim queria ter a validação dele. Uma parte de mim quis esquecer ele chamar-me de parva, de vaca, de estaferma e de puta, entre outros. Durante anos a fio. Desde os meus 11 anos mais ou menos, até emigrar. Fui saco de pancada, físico e emocional, físico desde pequena, apenas farrapo emocional após os 15 anos, porque com essa idade já parecia mal "bater numa menina", e os meus pais e familiares começaram a intervir.


Foi tudo falso, foi tudo manipulado, os meus pais dizerem-me para perdoar, para ser a the bigger person, somos todos fucking família, afinal. É fodido, não é? Não digas nada do que se passa em casa, isto são coisas da idade, isto melhora com o tempo, isto vai passar. Limpa-lhe o quarto, faz-lhe a cama, ele vai agradecer-te, vais fazer com que ele goste de ti, sê boazinha.


B O A Z I N H A


padrões de merda, que me meteram na cabeça, sê boazinha, para um homem gostar de ti


Que se lixe. Emigrei, e o meu cérebro quis esquecer. Fui apagando as memórias, não falo dele a ninguém. Ao longo dos anos eu fui tentando fazer a minha vida, mas sempre culpada, por não estar lá a ajudar, não ser rede de apoio dos meus pais, não ser A BOAZINHA.


Uma vez ele ligou-me, em 2019, tinha chegado a Paris há 2 meses, era uma 5ª feira de Verão, estava aquele calor infernal de Paris, andava a fazer domicílios, quando vi o nome dele no ecrã do telemóvel, gelei, esqueci o calor todo, senti um arrepio atravessar-me de cima a baixo na coluna vertebral, paralisei e atendi.


Berros, estava a partir tudo lá em casa, a minha mãe a tentar controlar, isto já durava há anos. Era da idade diziam... Ouvi e calei:


a culpa da minha vida ser uma merda é tua


foste para Paris para me tornar ainda mais miserável


tudo te corre bem e a minha vida continua uma merda


os pais gostam mais de ti do que de mim


eu sempre fui mais inteligente que tu, não percebo porque foste tu que tiveste sorte


és uma parva de merda, nem mereces a vida que tens


mata-te


MATA-TE


M A T A - T E


Ele disse-o. Eu só andava na minha vida, a lutar para ter melhores condições, a estudar muito, não pedi opinião a ninguém, muito menos a ele, eu só queria viver como se ele não existisse. Mas já era assim há anos. Eu era o saco de pancada emocional daquele homem. Mesmo longe, mesmo pelo telefone.


Eu avisei os meus pais que tinham que fazer algo. Não quiseram porque ia passar. Desde os 11 anos que ia passar, desde adolescente,  desde jovem adulto, há mais de 10 anos... senti-me ficar maluca, senti que só eu via um problema. Enlouqueci. Em 2020 pandemia, deprimi, por estar só, e saber que ele andava a partir tudo, a tornar a vida dos meus pais um inferno, e a acusar-me de tudo.


Tentei corrigir as coisas, pedi desculpa, nem sei bem do que estava a pedir perdão, por existir???


Natal 2021, fui a casa pela 1ª vez em quase 2 anos, vi o cenário de destruição, espelho do quarto partido, poliban da casa de banho partido, imans do frigorífico retirados porque eram constantemente atirados pelos ares, de um lado da cozinha ao outro. Disse aos meus pais que não podiam continuar assim, algo tinha que mudar, alguém ia acabar morto, ou os meus pais, ou ele. Em Janeiro de 2022, já de regresso a França, recebo uma chamada da minha mãe: "ele está no hospital, internado na psiquiatria, atirou-se ao teu pai a tentar matá-lo, o teu pai prendeu-o no chão com os braços atrás das costas, eu chamei os bombeiros".


E foi quando tudo começou. O início do fim, o fim do início, a continuação do inferno sem fim, que já dura há imensos anos, demasiados, nunca conheci uma única semana de paz na minha vida enquanto vivi com os meus pais, fui criada com berros e gritos a toda a hora, às vezes estava trancada no quarto a estudar, e ele entrava-me pelo quarto a dentro só para me dizer "és uma marrona, estás aí a estudar para quê, és burra, nunca vais ser ninguém na vida".


Todos os namorados que eu lhe apresentei eram xoninhas, segundo ele, porque não viam como eu era má, uma pessoa horrível, não viam como eu fingia ser simpática, "tu nem sequer és assim tão bonita".


"Nem que não fosses minha irmã, eu não te comia, nem que me pagassem"


Pois é, ele é o meu irmão.


E tem uma doença mental grave.


Cresci com ele, porque ele nasceu no ano a seguir a mim. Mas nunca nos demos bem. Preferia todos os dias ter sido filha única. Às vezes rezava no sono, para que ele morresse numa bebedeira. Fui vítima de agressões verbais constantes, desvalorizações diárias, isto quando não estava a ignorar-me e a fingir que eu não estava a falar para ele. Preferia ter sido filha única. Ainda hoje, se pudesse escolher, preferia não ter um irmão. 


Quando me perguntam se tenho algum irmão eu digo que tenho um, mas que não nos falamos muito, minto e digo que ele já saiu de casa dos meus pais e que foi morar para longe. O meu cérebro quis, e tentou esquecer esta pessoa, até só falei dele no blog, DUAS vezes, em 8 anos. Mas, ter um membro da família com uma doença mental NUNCA SE ESQUECE.  


N U N C A


As festas de anos minhas que ele estragou, ter de o levar para todo o lado, obrigada pelos meus pais, se não ele ficava em casa e fazia uma crise à minha mãe, a dizer que eu fui sair sem ele... ele até a minha festa de fim de licenciatura estragou, quis ir embora mais cedo, porque estava a ser "uma seca", e porque "ela de qualquer forma não vai arranjar trabalho nessa profissão de saúde da treta".


OUÇO a voz dele na minha cabeça, todos os dias. Todas as palavras de desvalorização que eu me digo a mim própria, têm o som da voz dele, e por isso não consigo estabilizar uma relação, porque acredito nele quando ele diz que eu não valho nada. Ainda hoje me admiro de não ter acabado com um badamerdas qualquer e ser vítima de violência doméstica, sinto que tenho o perfil dessas mulheres, podia facilmente ter caído numa situação merdosa qualquer. Fui escapando por entre as malhas da rede, e fui ficando solteira, fiquei para os últimos vagões... à espera de me curar, de me libertar destas correntes que me prendem a estas crenças.


Actualmente, ele fala todos os dias em suicídio, e eu tinha medo que acontecesse, os meus pais também. Mas recentemente tenho-o vivido como uma libertação, mais para ele do que para nós, até porque deve ser uma merda viver na cabeça dele. Eu compreendo-o quando diz que se quer suicidar, a sério que compreendo. Preferia que não o fizesse, e que ficasse bem, preferia que os tratamentos injectáveis fizessem efeito... e preferia às vezes não achar que tenho tendências genéticas para desenvolver a mesma doença mental. Preferia não dar por mim no trabalho, a achar que as minhas colegas se estão a rir no corredor, porque estão a gozar comigo... preferia não sentir que os meus amigos, familiares e parceiros amorosos só "fingem" gostar de mim. Preferia não achar que já estou a precisar de terapia outra vez, depois de ter tido alta no ano passado.


Foram 2 vezes, que falei nele aqui, mas muitos anos em só pensei nisto, no entanto, fingi estar tudo bem.


Mas hoje liberto-me dessa prisão. E gostava, sinceramente, que ele se libertasse da prisão dele. E a prisão dos meus pais, fechados em casa todos os dias a tomar conta dele, de um adulto com 30 anos, com receio que ele se mate...


Que merda.


Voa maninho, voa. 


 


 


DESABAFOS 17 AGOSTO 2016


DIÁRIO DE BORDO 12 MARÇO 2018


 


E UMA RECORDAÇÃO BOA,


ANTES DE TUDO ACONTECER: MEMÓRIAS DE ÁFRICA


 


 

9 comentários:

  1. Olá dESarrumada. Já tinha saudades de te ler
    Mas em bom Português.... Foda-se, que relato fodido!
    Lamento que tenhas passado por isso tudo. De certeza que te tornou mais forte em determinadas situações. Mas também de certeza que deixou marcas.
    Um abraço apertado e respeitoso deste teu seguidor fiel

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  2. Não tenho muito a dizer. Apesar de não nos conhecermos eu gosto genuinamente de ti.
    A vida às vezes é mesmo uma merda.
    Abraço apertadinho

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  3. Uma flor para a valente mulher que és!

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  4. A vida , às vezes, tem demasiados problemas. Fizeste bem em desabafar. Desejo que consigas ter paz e seres feliz, porque bem mereces. Já somos velhos conhecidos! Tudo de bom para ti e muitos beijinhos.

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  5. Eu já te admirava para caramba antes de ler isto. Depois de te ler neste desabafo, então!! Dasse! ....

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  6. Lamento que tenhas passado por isso.
    Força!!

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  7. :-(
    Não deve ter sido fácil... nem continua a ser mas espero de coração que consigas ter a paz que procuras e a força para "apagar" certas memorias infelizes...
    e Parabéns por nunca desistires de TI !!!!

    um grande beijinho

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